Não, eu não fiz “Ciência sem Fronteiras”

Parece sacrilégio quando eu digo isso, nunca entendi o motivo. Mas eu posso me explicar.

Eu entrei na graduação em Engenharia Física em 2012. Curso novo. Campus (quase) novo. Amigos novos. Vida nova. A única coisa que não era nova naquele momento é que o meu sonho era ser um cientista.

Muita gente fala que sempre sonhou em ser cientista, mas não sei se foi de uma forma tão intensa quanto eu. Quando criança, eu era apaixonado por dinossauros. Tipo muito mesmo. Tipo eu queria ser um. Ou pelo menos encontrar um. E foi aí que tudo começou… Eu aprendi que o jeito mais fácil de encontrar um dinossauro era sendo um paleontólogo. Adivinhem o que eu respondia quando me perguntavam o que eu queria ser quando crescer? Sim… Eu era tão louco por essa ideia que não perdia um documentário sobre dinossauros no Discovery Channel; folheava livros de dinossauros todos os dias, mesmo sem saber ler direito; tinha bonecos de dinossauros e sabia a espécie de cada um; sabia em que lugares do mundo tinham os dinossauros que eu mais gostava; sabia o que fazer para achar e como cuidar de um fóssil. Minha vida era dinossauros. Minha vida era estudar pra virar um paleontólogo. Meu sonho de cientista começou quando eu tinha uns 4 anos.

Discovery Channel e Beakman me ajudaram muito a ficar mais louco por ciência. Isso eu sei que é uma intersecção bem comum entre pessoas que tem o sonho de ser cientista quando criança. Depois disso, eu comecei a gostar de olhar pro céu, pro gelo derretendo, pros animais, pras plantas, pra tudo que a natureza fazia e me parecia complexo. Isso acendeu meu lado experimentalista. Eu não voltava pra casa sem uma semente maluca, sem um inseto num copo de plástico ou um cristalzinho que encontrava no meio do cascalho. Isso começou a evoluir, e eu comecei a buscar coisas dentro de casa, fazer experiências que o Beakman ensinava, e desmontar tudo que eu achava legal (essa última parte foi a mais problemática).

Na escola eu comecei a ser estranho quando a Matemática começou a ficar difícil. Pra mim não era (infelizmente hoje voltou a ser). Mas aquilo me empolgou tanto que eu queria saber coisas que eram difíceis para as pessoas que sabiam mais que eu. Aí a ideia de paleontólogo foi pro espaço, e eu quis ser matemático, “igual o Einstein” (eu não sabia muito das coisas). Eu queria resolver contas difíceis, que levassem muito tempo para acabar, porque eu me divertia.

Eu sempre quis ser cientista, mas nunca pensei em fazer “Ciência sem Fronteiras”?

Vamos voltar pra 2012, mas um pouco antes da primeira semana de aula na faculdade. As férias que eu passei revisando o que aprendi de cálculo com ajuda de alguns professores. Ter uma ideia de cálculo me ajudou ler sobre algumas coisas legais, ter uma noção de Física Quântica, e procurar fenômenos da Mecânica Quântica que nós conhecemos hoje. Foi aí que eu cruzei pela primeira vez com a supercondutividade.

Acabou as férias, e na primeira semana de aula eu descubro que o departamento em que eu ia ter a maioria das aulas tinha muita gente trabalhando com supercondutividade. Quem me contou isso foi quem ia virar meu atual orientador de Iniciação Científica. Aí eu comecei a ser chato. Comecei a bater na porta dele sempre que não tinha nada pra fazer (e eu quase nunca tinha algo pra fazer mesmo). E saber o que eu poderia fazer pra um dia trabalhar com supercondutividade. Bom… ele ainda é meu orientador, então parece que tudo funcionou.

No ano seguinte eu comecei a ter meu primeiro contato com o que era ser cientista. Passei o ano lendo e trabalhando no laboratório. Aquilo me empolgou muito. Confesso até que me salvou de desistir do curso algumas vezes. Meu orientador foi uma peça fundamental nisso, e por isso ele ainda é meu orientador, e deve continuar sendo. Eu nunca quis parar de fazer o que estava fazendo como cientista. NUNCA! E isso começa a explicar o que eu estou tentando desde o começo…

Eu não fiz “Ciência sem Fronteiras” porque eu não queria parar de fazer o que eu sempre sonhei. Eu não queria perder meu tempo resolvendo trâmites de viagem, aprendendo outra língua, indo morar um país novo. Nem pra ganhar mais dinheiro do que eu ganho sendo aluno de IC. Ponto. Eu gosto do que faço, não preciso fazer outra coisa só porque é uma “oportunidade única”. Também é uma oportunidade única passar 3 anos trabalhando com um grupo de pesquisa que é referência mundial na área de atuação e tentar contribuir com meus dois centavos. Eu aprendi muito, e não me arrependo de ter deixado de ir passar um ano e meio estudando fora. Quando for pra fazer isso, vai ser pra parar de contribuir com dois centavos, e dar um pouquinho mais para a comunidade científica. Nessa hora, eu não vou só estar viajando pelo mundo, eu vou estar realizando um sonho de criança.

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