Pra que diabos um ENGENHEIRO Físico precisa saber Mecânica Quântica?

Se eu ganhasse um real toda vez que ouvisse essa pergunta, já poderia até esquecer minha bolsa de IC. Todo ano entra um monte de gente no meu curso e boa parte sempre tem alguma dúvida nessa linha, não necessariamente sobre Quântica, mas qualquer outra matéria que parece difícil de passar (comentário em off: sejam mais criativos). E o pior é que muita gente, mesmo depois de fazer MQ continua sem saber. Talvez eu seja meio tendencioso na forma de justificar isso dando mais exemplos do meu trabalho do que de qualquer outra coisa, mas acho que vai dar pra entender meu ponto.

Como um bom aspirante a engenheiro físico, eu tenho sempre uma resposta direta e ofensiva em mãos:

Um engenheiro físico precisa saber MQ pra não falar bosta por aí.

Não tem nada pior do que ouvir gente metida a sabichona falando que pra explicar a Teoria BCS (a.k.a. teoria QUÂNTICA da supercondutividade) não precisa de MQ. Felizmente, não foi um EF que falou isso (sim, eu vou usar siglas), mas foi alguém que tentou ensinar um EF.

Tristes realidades à parte, a partir daqui vai uma justificativa mais completa e “educada”:

Se você for chato, você vai contestar essa primeira pergunta com algo do tipo:

“Ah! Mas ENGENHEIRO não precisa saber essas equações complicadas, ENGENHEIRO precisa pensar na aplicação, em tecnologia, em ganhar dinheiro.”

Primeiro lugar: Não enalteça a palavra “engenheiro” quando for falar algo desse tipo pra mim. Irrita profundamente. Engenharia Física é uma carreira bem peculiar, não tente comparar com outras engenharias, tipo elétrica, civil e mecânica. Se você gosta TANTO delas, tá no curso errado.

Segundo lugar: Olhe para tudo que tem de mais tecnológico ao seu redor. Olhou? Acha que vender isso dá dinheiro? Acha que essas coisas foram importantes para a evolução da humanidade? Acha que a cultura da nossa civilização foi afetada por essas coisas? Acho que a resposta é sim pra tudo. Pois bem, todas essas coisas não existiriam sem Mecânica Quântica.

Aí vem o comentário mais sem noção:

“Mas tudo isso já foi inventado. ENGENHEIRO não precisa se preocupar com isso. Os físicos já fizeram a parte chata, e agora a gente só precisa ganhar dinheiro com isso.”

Se for comigo que você tiver conversando, eu vou fazer uma referência à primeira resposta, e falar que você é o tipo caso de gente que tá falando bosta. De novo, engenheiro físico não é o cara que se forma pra ficar desenhando caixa no CAD (a.k.a. engenheiro civil), nem o cara que vai medir tamanho de porca (a.k.a. engenheiro mecânico), muito menos o cara que vai passar o resto da vida medindo cada pedaço de um circuito com um multímetro (a.k.a. engenheiro elétrico). Se você quer pegar o que a gente já conhece por ciência há mais de 100 anos, não perca seu tempo. Tem milhares de carreiras aí que te dão essa oportunidade.

Vou dar exemplo de um cara que não é engenheiro físico de formação, mas que é engenheiro e físico e cujos trabalhos capturam bem a essência do que é ser um EF. Já ouviram falar de John Bardeen? Esse cara se formou em 1928 em engenharia elétrica, porque ele não queria ser acadêmico como o pai, mas ainda assim tinha muito interesse em ciências exatas. Durante a graduação ele puxou várias matérias de Física e Matemática. No ano seguinte ele obteve o mestrado dele, também em engenharia elétrica, e trabalhou nos 3 anos seguintes como geofísico. Nos três anos depois desses, ele ficou em Princeton e tirou o doutorado na área de Física do Estado Sólido. Depois do doutorado (a.k.a. depois de virar alguém no meio acadêmico) ele foi trabalhar na Bell Labs, com mais dois caras, e esse trabalho rendeu a ele o Prêmio Nobel de Física de 1956 pela invenção do transistor (sim, ele só foi um dos caras que inventou um dos mais importantes componentes eletrônicos que existe). Um ano depois de ganhar o Prêmio Nobel, ele já estava em outra vibe, junto com um tal de Cooper e outro tal de Schrieffer. Bardeen-Cooper-Schrieffer, BCS (sim, ele foi um dos caras que ganhou o Nobel de Física pela formulação da teoria QUÂNTICA da supercondutividade).

Não sei vocês, mas pra mim esse cara deu contribuições fudidas no mundo tecnológico que nós temos hoje. Inventar o transistor só permitiu você estar lendo esse texto na sua casa, talvez deitado, e não numa sala dedicada exclusivamente ao computador nada pessoal que você (talvez) teria acesso. A supercondutividade é um dos fenômenos que mais tem chance de, novamente, revolucionar a computação, com o que conhecemos hoje pelo nome de Computação Quântica (mas isso não é assunto pra agora). E sinto muito, mas se esse ENGENHEIRO, não soubesse MECÂNICA QUÂNTICA, a vida da humanidade toda poderia ser bastante diferente.

A minha dica é: da próxima vez que um questionamento sobre o quanto de Física um ENGENHEIRO precisa saber passar pela sua cabeça, saia do curso, ou lembre do Bardeen.

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