A hora certa de aprender

Último dia de férias. Agora é hora de voltar pra sala de aula, pensar em provas, trabalho e tudo mais. O assunto de hoje vai justamente de encontro com a volta aos estudos.

Talvez por estar mais “avançado” no meu curso (e também por em geral estar disposto a responder dúvidas) é comum que alunos mais novos me procurem com uma dúvida do tipo:

“O que eu preciso estudar para entender (colocar assunto aqui)?”

Eu acho essa pergunta engraçada. Entender um determinado assunto é algo bastante relativo. Depende muito do nível de profundidade que se considera “entender” e isso costuma mudar os pré-requisitos necessários pra começar a mergulhar nos livros e artigos espalhados por aí. Receber indicação de livros não faz mal nenhum, e vai sempre ajudar a ter uma listas de referências boas em cada área, mas a maioria para por aí. É fácil baixar um pdf de um livro e nunca ler. E o mais estranho é que a maioria não lê por medo.

O que eu quero dizer com isso? Incansáveis vezes eu já ouvi gente falar que não estuda algum assunto porque “não está preparado” ou porque “quer estudar algo antes”. Deixa eu contar um segredo aqui: se todo mundo pensasse desse jeito, o que nós conhecemos por ciência nem existiria hoje. Imagina se os “gênios da Física” tivessem ficado esperando a vida toda pra terminar de entender a matemática necessária para resolver seus problemas! Se alguém conseguiu formular um pedaço de Física há várias décadas, o que nos impede de entender o que está hoje bem mais “mastigado” e pronto pra entrar na nossa cabeça?

Existem duas horas muito boas para se aprender: quando você quer, e quando você precisa

Em geral, as coisas começam só com vontade. Você ouve falar de um assunto que não conhecia, e parece interessante. Aí já vem o primeiro obstáculo, que é superar o medo (se você quer mesmo, não é preguiça, é medo) do assunto ser muito complicado pra você, de você não ter base, e a maioria das pessoas já se dá por vencida nessa parte.

Um ou outro vence o medo, e abre um livro (cara, isso é raro). Em geral, mais uma vez isso já é motivo para desistir. “Caramba, quanta equação!”, “Nossa, isso é coisa de nerd.”, “Ah! Eu nunca vou usar isso.”. Já se pegou pensando algo assim? Melhor repensar sobre seu aprendizado.

Um ou outro tenta ler o livro, mas vê que não entendeu uma linha depois de ler dez páginas do livro. Essa é a hora em que se precisa aprender. O que a maioria faz? Fecha o livro e desiste. Já foi mais longe que muita gente, mas só serviu pra perder tempo esse esforço.

De verdade mesmo, se você quer saber muito sobre algum assunto, aprenda sozinho. Nenhum professor é capaz de condensar todo o conhecimento de um determinado assunto da Física em um semestre. Ninguém vai conseguir te ensinar a programar computadores se você não fizer sozinho. Ninguém vai te ensinar a conduzir experimentos sem nenhum erro sem que você mesmo faça, e cometa erros. Aprender de verdade exige ser minimamente autodidata. E sem medo!

Alguns exemplos disso:

É muito normal estudantes de graduação das áreas de exatas começarem o curso chorando porque precisam usar nas aulas de Física ferramentas que ainda não aprenderam nas aulas de Cálculo. Cara, um tal de Isaac Newton também não sabia Cálculo. Ele ficou chorando? Não! Ele inventou a porra do Cálculo! O que que impede você que se acha nerdão porque passou num dos vestibulares mais concorridos do país de pegar a porcaria do livro de Cálculo que já tem tudo que o Newton (ou Leibniz, se você preferir) inventou e várias pessoas já mastigaram e colocaram em livros coloridinhos?

“Ah! Mas só bixo faz esse tipo de coisa!”

Quem me dera. Quanta gente reclama que o professor não tá conseguindo acompanhar o livros das referências, e que isso vai atrapalhar muito a formação? Tá, eu concordo que tem casos bem extremos, e nessas horas é bem necessário cobrar um ensino de qualidade. Mas, de verdade, quem perde mais com isso? O professor que tá precisando trabalhar menos, ou o mongolão que acha que ficar sentado reclamando é fazer a parte dele? De novo, não estou de forma alguma defendendo professores assim. Tenho repúdio de cara concursado na melhor universidade da América Latina que não tem capacidade de preparar aula de uma matéria que é “especialidade” dele. Mas acontece, e reclamar não vai mudar nada.

Richard Feynman foi, na minha singela opinião, um dos maiores Físicos que já existiu. Se você não concorda, azar seu. Quer saber uma das coisas fodas que ele fez? Antes de sair do colégio ele já conhecia e dominava assuntos que em geral se aprende em disciplinas tipo “Física Matemática”. E não era porque o professor dele era muito bom. Muito pelo contrário. Ele lia o livro dele de métodos matemáticos da Física enquanto estava nas aulas, porque achava que o que os colegas dele estavam aprendendo era entediante. Se ele ficasse só sentado reclamando, a Física estaria bem empacada hoje em dia.

“Mas quem tem um ‘perfil acadêmico’ não faz isso.”

Mentira. Quanta gente que eu já vi por aí, no meio da Iniciação Científica, do Mestrado ou do Doutorado, que acha um absurdo o orientador pedir pra ler livros e artigos, e fazer revisões bibliográficas de uma série de assuntos, sendo que o aluno nunca fez uma matéria sobre o assunto. Só vou fazer um comentário: Newton não tinha ninguém orientando ele, e mesmo assim, desenvolveu tudo que nós conhecemos hoje como Mecânica Clássica.

Pra fechar: pare de ter medo de aprender, pelo seu próprio bem. Não existe hora certa de se aprender, não existe ordem certa pra se aprender. Se você quer ou precisa, já tem mais que o suficiente pra largar a preguiça.

Acho que vocês já estavam com saudades das postagens, mas eu parei por falta de criatividade. Estou aceitando sugestões para futuros textos. Fiquem à vontade 😀

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