Re: Como se tornar um cientista em 3 passos

Há uns dias atrás eu li o texto “Como ser um cientista em 3 passos” que foi publicado no Hypescience. Aparentemente foi escrito por alguém que nunca se envolveu com uma carreira acadêmica, e aí eu fiquei com vontade de “responder”.

Começando com alguns comentários sobre o texto:

“Multinacionais investem pesado em pesquisa”

Depende muito. Muito mesmo. Se você der algum retorno financeiro para a empresa, os investimentos existem sim, mas não são todas as áreas da ciência que tem essa sorte. Por exemplo, um físico teórico que trabalha com cosmologia, muito provavelmente vai ter que ralar pra ter um investimento do governo. De empresas, então, sem chance.

Tudo bem, eu tenho certeza que o autor não estava se referindo a esse tipo de cientista, mas boa parte deles entram nessa categoria, e as coisas não são fáceis assim. O professor que ele cita no texto é responsável por UM dos laboratórios (Laboratório de Biomateriais Poliméticos) de UM dos institutos (Instituto de Química) de UMA das unidades (Campus Butantã) de UMA das universidades públicas do país (USP). Não é um exemplo para se generalizar.

Dinheiro na vida de quem pretende seguir uma carreira científica vem quase que em sua totalidade de bolsas de estudos. Desde a graduação até o pós-doutorado. É comum você ouvir pessoas falando por aí que o valor da bolsa é muito baixo, que não dá nem pra viver. Não deixa de ser um pouco de verdade. Não é um dinheiro pra sair jogando pro alto. Mas mesmo assim, você está sendo pago pra estudar, melhorar a SUA formação, sem gastar dinheiro, e ainda recebendo. Pra quem gosta do que faz, dá pra viver bem feliz.

“2. Iniciação científica”

O aluno precisa passar por um processo seletivo ou ser convidado pelo professor? Na verdade, varia muito. Tem professor que convida. Tem aluno que procura professor. Tem professor que faz processo seletivo. Não existe uma regra. Você passa por uma seleção para começar a receber, mas dificilmente um professor que tenha disponibilidade para orientar um aluno vai negar alguém que se interesse em trabalhar, mesmo de graça.

Rendimento acadêmico bom é imprescindível, mas não é nenhuma dica específica pra quem quer entrar numa carreira acadêmica. É obrigação de todo mundo que está em uma universidade tendo seus estudos custeados pelo governo. A mesma coisa a respeito de manter uma rotina de estudos.

“Capacidade de obter resultados”? Nhé… Não que não seja importante, mas “capacidade” não parece a palavra certa. Obter resultados é muito importante para qualquer grupo de pesquisa se manter financiado, mas isso nem sempre depende só da capacidade das pessoas que estão trabalhando.

Iniciação científica é realmente a porta de entrada para uma carreira acadêmica. Na verdade, é quase mandatório. É uma ótima oportunidade para fazer parte de um grupo de pesquisa, conhecer laboratórios, estudar assuntos diferentes, apresentar seu trabalho e aprender a escrever textos científicos.

“3. Dominar outros idiomas”

Obrigação de qualquer pessoa que queira se dar bem na graduação (pelo menos inglês). A maioria dos bons livros, artigos, e sei lá mais o que é escrito em inglês. Pra fazer intercâmbio isso é mandatório, óbvio, mas não se limita só a esse caso. Fora que fazer intercâmbio não te torna mais cientista.

“3 passos”

Sério mesmo? 3 passos? Se fosse fácil assim ser cientista, todo mundo ia querer ser. Não quero desanimar ninguém, mas a carreira de um cientista tá longe de parar nisso.

Durante a graduação, é muito importante o aluno se envolver com outras atividades extracurriculares que não sejam a IC, como centros acadêmicos, organizações estudantis, monitorias, projetos não necessariamente vinculados a um grupo de pesquisa e por aí vai. Tudo que te acrescentar algum conhecimento útil para a vida acadêmica vai ser importante pra te ajudar a se tornar um cientista. E a vida acadêmica não está restrita a estudar, conseguir resultados, sair do país e ser financiado por uma empresa. Ter e propor novas ideias, aprender a organizar e participar de eventos científicos, aprender a ensinar (e ensinar) são algumas das coisas que uma hora ou outra todo cientista precisa fazer.

A graduação pode ter acabado, mas você ainda não é um pesquisador. Sem pós-graduação, ou melhor, sem doutorado, você não é ainda um pesquisador. Na USP, por exemplo, para ser professor/pesquisador, o requisito mínimo é doutorado. Nisso se vão mais 6 anos de estudos e defesa de duas teses (ou se você der sorte de fazer um doutorado direto, 4 anos e meio a 5 anos, e uma tese “só”). Ao longo desse tempo, você precisa participar de congressos, publicar artigos e fazer coisas que sejam inéditas na sua área. Depois disso, sim, você pode se concursar para professor. Mas o ideal é ter um pós-doutorado pra garantir. E se quiser ganhar bem, uma livre-docência ajuda. Tudo bem, a partir do final do doutorado as pessoas já começar a te considerar um pesquisador de verdade. As bolsas não são das melhores, e você não pode ter outro vínculo empregatício, você vai ver amigos seus com somente a graduação completa que ganham mais que você.

Não são 3 passos, são MUITOS passos. Muitos mesmo. Mas eu não abro mão do meu sonho de ser professor/pesquisador de uma universidade um dia por nada. Ciência é algo bastante gratificante. Acrescenta muito e é recompensador ver resultados dando certo.

Pra fechar, uma frase do querido Richard Feynman que resume perfeitamente o que é ser cientista:

“I won’t have anything to do with the Nobel Prize … it’s a pain in the … (LAUGHS). I don’t like honors. I appreciate it for the work that I did, and for people who appreciate it, and I know there’s a lot of physicists who use my work, I don’t need anything else, I don’t think there’s any sense to anything else. I don’t see that it makes any point that someone in the Swedish Academy decides that this work is noble enough to receive a prize—I’ve already got the prize. The prize is the pleasure of finding the thing out, the kick in the discovery, the observation that other people use it [my work]-those are the real things, the honors are unreal to me.”

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