Trabalho de engenheiro

Um dia desses (mais precisamente, ontem), estava vagando por aí quando ouvi dois estudantes de engenharia conversando. Um deles virou e falou que ficou sabendo de uma oportunidade de trabalhar em uma empresa, num cargo em que faria cotação de peças e levantamento de orçamento. O amigo dele respondeu de imediato: “Legal! Cargo de engenheiro mesmo”.

É nesses momentos que eu tenho um pouco de vergonha do título que vou receber quando terminar a graduação. Sério mesmo? Pra isso que eu passei os últimos 4 anos estudando Matemática, Física, Química (blergh) e milhares de matérias específicas nas quais eu precisava lembrar de uma porrada de coisas que aprendi em Mecânica Quântica, Física Estatística, Eletromagnetismo e tudo mais que veio pra tirar noites de sono? Pra isso que eu virei noites escrevendo relatórios e tantando interpretar resultados malucos de experimentos?

Antes que qualquer pessoa venha falar algo criticando essas perguntas, eu não estou desmerecendo quem trabalha com algo desse tipo. Só estou levantanto um questionamento sobre pra quê levar 5 anos com disciplinas complicadas pra formar mão-de-obra que está “em falta” no país. Pra formar alguém que saiba resolver problemas? Mais fácil colocar todo mundo pra fazer testes de lógica e dar um diploma, então.

O meu conceito de engenharia era bem diferente quando entrei na graduação. Pra mim, engenheiro era aquele cara que conhecia muito sobre um assunto, que tinha excelentes ideias pra criar, inovar, e sempre aproveitando de toda a base científica que acumulou durante a formação. Mas aí você ouve pessoas da sua própria faculdade falando que “saber muita matemática só é importante pra quem quer fazer doutorado”, ou que “o que importa mesmo são suas competências interpessoais”. Quer dizer que pra ser “engenheiro” você não precisa mais ter aquele brilho nos olhos quando ver um equipamento extremamente moderno? Você não precisa relacionar todo o funcionamento de máquinas, dispositivos e processos pensando em toda a ciência por trás daquilo? Basta ter bastante amigos, saber lidar bem com eles e pronto? Engenheiro?

Eu ainda dei a sorte de cair numa carreira que prega justamente o contrário. Que não pega um problema complicado e fala: “Ah! Mas isso é pra físico resolver”. NÃO! Aquelas disciplinas bonitinhas que tem no seu currículo e que eu imagino que você acha inútil não são enfeite! Não passe o resto da sua vida usando o título de engenheiro só pra ganhar um salário maior e continuar fazendo a mesma coisa. Principalmente se você é ou será um engenheiro físico.

Muita gente próxima de mim fala que eu sou maluco de sonhar com uma carreira acadêmica. Passar anos vivendo de bolsas e passar o resto da vida fazendo pesquisa e dando aula. Mas sinceramente, prefiro milhares de vezes ganhar menos mas ter certeza de que não aprendi nada em vão do que passar o resto da vida dando as mesmas ordens sentado numa mesa sem usar o conhecimento que adquiri nos últimos anos. E espero que meus leitores, mesmo que queiram trabalhar de fato como um engenheiro, não sejam o engenheiro canônico que só pensa em arrumar um cargo que renda um bom salário e dane-se o resto.

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